O Reino Unido notificou, esta quarta-feira, a activação do artigo 50º do Tratado de Lisboa, o qual determina o processo da sua saída da União Europeia. Reino Unido e União Europeia terão agora dois anos para chegar a um acordo para o ‘divórcio’. Entretanto, crescem as dúvidas e as preocupações no sector da logística.

As empresas ligadas à logística na Europa e no Reino Unido têm mostrado a sua preocupação com os futuros impactos nas suas actividades e vários são os pontos críticos e de dúvida crescente – entre os quais os possíveis atrasos nas operações portuárias, o aumento da complexidade e dos custos ou a dificuldade no recrutamento de mão-de-obra para o sector.

Num recente debate realizado em Londres e que juntou vários actores e representantes de associações do sector, o futuro do comércio britânico com a União Europeia foi alvo de análise. No evento, ficou claro que é de vital importância o estabelecimento de um novo acordo comercial entre o Reino Unido e a União Europeia nos próximos dois anos, sob pena do ‘Brexit’ poder criar um gigante fosso para muitos dos principais países de origem e destino do comércio externo britânico.

Já o representante da British Ports Association (BPA), Richard Ballantyne, admite que a preocupação principal da gestora dos portos britânicos reside na área da facilitação dos processos, nomeadamente nos controlos na fronteira. «E isso é maximizado no segmento ro-ro», refere, acrescentando: «Os portos são gargalos por natureza, portanto assim que se comecem a apertar os controlos (à entrada e saída de carga e veículos), isso trará muitos problemas. E depois há os custos...».

Uma outra intervenção interessante foi a de Kevin Lucas, representante da Neovia Logistics, o qual salientou que o maior problema pode estar na mão-de-obra – recordando que os imigrantes são vitais para o sector logístico, em particular europeus não britânicos, que podem agora começar a sair em massa do país. «Com menos de 5% de taxa de desemprego, onde vamos encontrar pessoas que preencham esses buracos?», questiona.


Cinco pontos críticos a ter em consideração

Numa recente análise feita pela britânica Aon, o ‘Brexit’ e as suas consequências para o sector logístico são aprofundados, surgindo em destaque uma série de cinco pontos críticos a ter em consideração como consequência da saída do Reino Unido da União Europeia.

1- COMÉRCIO

O primeiro ponto apontado pela Aon como consequência para o sector prende-se com os mais que prováveis efeitos no comércio entre o Reino Unido e os países da União Europeia.

Recordando que os mais recentes dados apontam para que 44% das exportações britânicas tenham hoje como destino países da UE, a Aon salienta então que é de esperar um importante impacto no comércio externo britânico e, por conseguinte, no sector logístico. A Aon refere assim que, mesmo que o Reino Unido compense as ‘perdas’ de tráfego com a UE com tráfegos com outros países, haverá sempre consequência para o sector – em particular reduzindo a procura do modo rodoviário e aumentando a procura de outros modos dadas as origens e destinos serem mais distantes.

2- CONTROLOS DE FRONTEIRAS

O apertar do controlo na fronteira britânica relativamente a movimentações com países da União Europeia é outro dos pontos apontados pela Aon, que espera que com o passar do tempo se acentuem as barreiras na entrada e saída de bens, aumentando a lentidão das movimentações.

3- FALTA DE MOTORISTAS

O terceiro ponto apontado como potencial problemática do ‘Brexit’ para o sector está relacionado com a possível falta de mão-de-obra. A Aon recorda que muitos postos de trabalho na logística britânica são ocupados por europeus não-britânicos, sobretudo camionistas. E o ‘Brexit’ pode levar a uma falta de mão-de-obra nesta área, com a eventual saída dessas pessoas do país. A Aon refere, por outro lado, que a resposta a isto terá que ser dada através de uma maior formação de motoristas britânicos.

4- IMPLICAÇÕES LEGAIS

A Aon lembra ainda possíveis impactos a nível de legislação no sector, com a saída da União Europeia. Porém, e recorrendo a um especialista, salienta que é pouco provável que existam alterações de fundo em questões como a segurança no sector – mantendo as bases das leis europeias e a devida harmonização com parceiros da UE.

Porém, uma área onde podem existir alterações legais mais profundas é a área laboral e a Aon refere que as empresas terão que se preocupar com as eventuais leis diferentes para trabalhadores no Reino Unido e na União Europeia, em particular os motoristas que fazem transportes internacionais.

5- CUSTOS

Como último ponto, a Aon refere que o ‘Brexit’ pode trazer aumentos dos custos operacionais para as empresas do sector. É de esperar um aumento nas tarifas para exportações do Reino Unido para a União Europeia e isso poderá levar a que os custos sejam colocados nos ombros dos fornecedores logísticos.

Por outro lado, uma menor liberdade de movimentação de bens levará a uma diminuição de eficiência e, inevitavelmente, a uma redução nas margens dos operadores do sector.