A União Europeia apesar dos poucos recursos naturais conhecidos – 1% das reservas mundiais em petróleo, 1,5% de gás natural e 4% de carvão – continua a afirmar-se como um dos maiores consumidores de energia do mundo. Com 28 países e mais de 505 milhões de pessoas, o “velho continente” acolhe apenas 10,5% da população mundial que consome 20% da energia produzida no mundo. Refém dos mercados externos para a satisfação das suas necessidades energéticas e a debater-se com os fenómenos do desemprego, do envelhecimento da população e exclusão social das populações mais jovens, a Europa está a envelhecer envolvida numa espiral de regulação não simplificada que lhe condiciona a capacidade de acompanhar um mundo em permanente mudança.

Devido à sua influência económica, o setor de transportes tem estado na linha da frente, implementando ações de combate às mudanças climáticas, sobretudo porque este setor possui um padrão energético baseado fundamentalmente em combustíveis fósseis (cerca de 96% das suas necessidades energéticas), o que apresenta uma forte relação com o aumento das emissões de gases do efeito estufa e emissão de partículas nocivas.

A concentração das diferentes modalidades de transporte e equipamentos nas operações portuárias contribuem negativamente para a saúde das pessoas e para a boa relação do setor com as dinâmicas dos territórios envolventes - sendo igualmente responsáveis por elevados consumos energéticos, produção de ruído e libertação de dióxidos de enxofre, óxidos de nitrogénio e CO2 na atmosfera.

Nos últimos anos, tivemos a oportunidade de visitar diversos portos e terminais, e assistir a conferências nos mais variados continentes. Observamos processos de implementação e os resultados de diversas iniciativas de baixo carbono, ao mesmo tempo que chegamos ao diálogo com técnicos e decisores que assumiram a missão de contribuir para um sistema logístico e portuário inteligente, inclusivo, eficiente e amigo do ambiente.

Destacamos iniciativas que contribuíram para a coesão territorial, como é o caso do Porto de Gotemburgo, um dos pioneiros no abastecimento de energia elétrica a navios, o que reduziu a poluição atmosférica e os odores que afetavam o bem-estar das populações vizinhas. Logo ali ao lado, a Noruega pretende afirmar-se como líder mundial na conceção e utilização de navio “limpos” e amigos do ambiente, com o Porto de Oslo a apoiar um grupo de engenheiros, investidores e representantes do setor marítimo que estão a apostar na conceção de navios híbridos.

No Porto de Bremenhaven, questionamos o seu CEO, Robert Howe, relativamente às prioridades para o futuro do porto. Numa pronta resposta, afirmou a sua crença na indústria das “eólicas offshore” como resposta à redução do desemprego da região, em simultâneo com a redução da dependência energética da Alemanha. Bremenhaven tem uma estratégia clara para atrair ao cluster portuário todo o tipo de indústrias relacionadas com as eólicas. O espaço em que outrora havia um aeroporto foi convertido num parque tecnológico para centros de excelência e indústrias que contam com um moderno e especializado terminal - desenhado para responder aos requisitos específicos destas características de carga. Para além da geração de valor e a movimentação daqueles enormes artefactos, a criação de condições favoráveis à prosperidade das eólicas colocou o porto num patamar de resposta ao combate ao desemprego da região e numa alavanca para proteger a economia alemã da dependência dos mercados externos.

Nos Estados Unidos, os portos de Los Angeles e de Long Beach, na Califórnia, investiram dois bilhões de dólares para reduzir 45% das emissões. Destacam-se iniciativas como o investimento na instalação de redes elétricas nos terminais, para que os navios possam desligar os seus motores enquanto permanecerem acostados; na modernização de pórticos e gruas por sistemas que permitam o reaproveitamento da energia gasta; na substituição dos tradicionais veículos de transporte de contentores por rebocadores, empilhadores, e camiões híbridos ou elétricos, e outras viaturas elétricas e menos poluentes.

O Porto de Long Beach pretende assumir-se como o porto mais verde do mundo, investindo na redução contínua das emissões de carbono ao mesmo tempo que procura aumentar a atividade económica. Para o Mayor de Long Beach, Robert Garcia, este objetivo depende sobretudo da conceção de infraestruturas sustentáveis e inovadoras que otimizem a eficiência operacional do porto, aumentem a velocidade de movimentação das mercadorias e que facilitem a integração dos diferentes elos das cadeias de abastecimento.

O processo de gerir, consumir e fornecer energia elétrica está a marcar as tendências de uma nova Era de desenvolvimento da economia portuária. Esta tendência abrirá caminho para um novo paradigma do porto enquanto produtor de energia. Disso mesmo temos sinais vindos do Porto de Long Island, onde o conceito “Energy Island” está a começar a dar resposta à demanda energética, através do potencial combinado das fontes solar, eólica, geotérmicas e das marés.

Quer no outro lado do Atlântico, quer na Europa, comprovamos que o caminho que está a ser percorrido, na adaptação dos portos às necessidades energéticas e desafios das alterações climáticas, pode atrair novos negócios, criar postos de trabalho, aumentar a receita, reduzir custos, melhorar a qualidade de vida das pessoas e a preservar os ecossistemas. Este é um caminho que está longe do horizonte da sustentabilidade, mas muito perto de obter resultados concretos em matéria de coesão social e territorial num horizonte de médio-curto prazo. Sigamos este rumo…

Sobre os autores,

Ana Cristina Ribeiro e Hugo Metelo Diogo são dirigentes da unidade de negócios da “Economia do Mar” a Blue Growth by Compta onde desenvolvem atividade na conceção e promoção de sistemas de interconectividade inteligente suportada pelo potencial da Internet das Coisas (IoT) e sistemas para a gestão eficiente de terminais e operações portuárias.